30.1.09

Tópicos de Moda

Identidade sexual da moda brasileira: A moda masculina na formação da sociedade brasileira.


"O Brasil foi como uma carta de paus puxada em um jogo de trunfo em ouros. Um desapontamento para o imperialismo que se iniciava com a viagem à Índia de Vasco da Gama".
Gilberto Freyre, Casa-grande & Senzala, (Global: São Paulo, 2005), p. 275.


"A monocultura latifundiária e escravocrata e, ainda, monossexual - o homem nobre, dono de engenho, gozando quase sozinho os benefícios de domínio sobre a terra e sobre os escravos - deu ao perfil da região o que ele apresenta de Aquilino, de aristocrático, de cavalheiresco, embora um aristocratismo, em certos pontos, mórbido e um cavalheirismo às vezes sádico."
Gilberto Freyre
Falar de identidade sexual da moda brasileira sem mencionar a antropologia do cotidiano, tão bem desenvolvida pelos inventores do Brasil, na década de 1930, é um ato falho. Tudo que conhecemos hoje, de hábitos e costumes, se dá essencialmente pelo trabalho desenvolvido por dois dos maiores cientistas sociais brasileiros: Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, que através de um trabalho pioneiro debruçaram sobre a sociedade brasileira e analisaram mais de quatro séculos de história, para formalizar uma obra que pudesse estar à altura da pujança sociocultural, que a colonização concebeu, e que ninguém até então, havia se atrevido a escrever sobre.
Gilberto Freyre com Casa-Grande & Senzala (1933), Sobrados & Mucambos (1936), e Sergio Buarque de Holanda com Raízes do Brasil (1936), sem duvida, sempre serão obras incontestáveis e atemporais no que tange o conceito de pensamento brasileiro.
"Creio que nenhum estudante russo, dos românticos, do século XIX, preocupou-se mais intensamente pelos destinos da Rússia do que eu pelos do Brasil, na fase que conheci Boas*. Era como se tudo dependesse de mim e dos de minha geração; da nossa maneira de resolver questões seculares. E dos problemas brasileiros, nenhum que me inquietasse tanto como o da miscigenação."
Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala (Global: São Paulo, 2005), p. 31.

*Franz Boas (1858-1942), Antropólogo.
No Brasil, não defirente da Europa, naquele período, a roupa sempre foi excludente, servindo como instrumento da legitimidade do poder. Na cabeça do homem brasileiro, literalmente, estava sedimentado seu grau de graduação e legitimação do poder, representado pelo chapéu, que era um ornamento que serviu a esse favor.

A dicotomia homem-mulher criada no período colonial se desenvolveu muito mais fundamentada no fator social, que no biológico em si, visto que o homem branco e a mulher branca assemelhavam-se na ociosidade exacerbada. Ou seja, existia toda uma rede social que ficava encarregada de realizar qualquer trabalho. Passando assim para os criados, até as tarefas normalmente próprias da maternidade e da maternidade, no que tange a criação dos filhos, educação, amamentação, enfim, todos os cuidados.

Esse reflexo se deu na moda do homem, através de uma feminilidade implícita, tamanho os apuros com a vaidade que se sucediam. “Mãos delicadas, pés amanhados com assiduidade, cabelos com brilhantina, bigodes lustrosos, barbas talhadas, enfim tratos exagerados que lhe conferiam um perfil mais feminino que masculino”. Fátima Quintas, Sexo a moda Patriarcal (Global: São Paulo, 2008) p. 149. Tomando-se as funções das mulheres para eles. Cultivando um dandismo precoce para uma sociedade pouco desenvolvida, até então.
"Os homens sempre usavam barbas no período colonial, sendo durante muito tempo adereço significativo de virilidade -, bacharéis, médicos, oficiais ou, mais tarde, espertos negociantes... Bigodes lustrosos de brilhantina, gordos, arredondados em barrigas, sedentários, suíças enormes, grandes diamantes no peitilho da camisa, nos punhos e nos dedos... Os bacharéis ostentavam rubi nom dedo e porte sobranceiro." Ibidem., p. 72
O diformismo sexual, presente nesse período, era o mesmo que prevalecia na Europa, com um viés aristocrático e falocrático, que na verdade predomina até hoje, por essas terras. O homem branco teve um papel social, tão representativo quanto a sua senhora, dado sua ociosidade, e sua falta de traquejos físicos, desenvolvida ao longo dos anos, devido à falta de alguma atividade que possibilitasse ganhar um porte consistente. Sua inércia e uma vida lânguida conceberam um homem fraco, esquálido. Mas excentricamente arrogante e incrustado em valores baseado no poder político vigente, que lhe conferia status, e atitude de macho: "homem até debaixo d’água".
Centro convergente do complexo mosaico sociocultural, a Casa-Grande era um retrato, perfeito do poder vigente, traduzindo em cada detalhe, físico, místico, espiritual, e falocrática, o papel social de cada indivíduo na estrutura macro: "A casa-grande, completada pela senzala, representa todo um sistema econômico, social, político: de produção (a monocultura latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro de boi, o bangüê, a rede, o cavalo); de religião (o catolicismo de família, com capelão subordinado ao pater familias, culto dos mortos, etc.); de vida sexual e de família (o patriarcalismo polígamo); de higiene do corpo e da casa (o "tigre", a touceira de bananeira, o banho de rio, o banho de gamela, o banho de assento, o lava-pés); de política (o compadrismo)". Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala (Global: São Paulo, 2005), p. 36.
E foi num ambiente de "quase intoxicação sexual" (p.161), conforme saliente Freyre, que se formou a genesis da sociedade brasileira. Fato esse que corrobora, para uma identidade social, sumariamente arraigada na sexualidade exacerbada. "las mujeres andan desnudas y no saben negara ninguno mas aun ellas mismas acometen y importunan los hombres hallandose con ellos en las redes; porque tienen por honra dormir con los Xianos". Padre Jose de Anchieta in: Retrato do Brasil, Paulo Prado (p.161). Era nesse cenário que os primeiros portugueses aportaram. Saindo de uma Europa, “tecnicamente casta”, podemos imaginar o quão excêntrico era essa continental, terra de ninguém. Além do que, o ambiente era farto de um verdadeiro bacanal. Mulheres nuas, clima propício, lascívia exacerbada, esse era o retrato do Brasil, quando do descobrimento.
Conforme Freyre:
"O europeu saltava em terra escorregando em índia nua: os próprios padres da companhia precisavam descer com cuidado, senão atolavam o pé em carne. Muitos clérigos, dos outros, deixaram-se contaminar pela devassidão. As mulheres eram as primeiras a se entregarem aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses. Davam-se ao europeu por um pente ou um caco de espelho". Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala, (Global: São Paulo, 2005), p.161.
A simplicidade da indumentária indígena, ao contrário da do colonizador, tinha um papel muito mais convencional do que segregador. A casca de arvores eram utilizadas pelos homens, pedaços de palmeiras serviam como pentes para as mulheres; o corpo era decorado com ligaduras, furos atravessavam o nariz, chocalhos nas pernas, e uma pintura elaborada, de acordo com os costumes e o papel sexual do individuo na tribo. Entre os indígenas, o vermelho era a cor predominante, para eles, essas cor simbolizava o erotismo, a atração sexual ou ainda uma tentativa supersticiosa de afastar espíritos maus, sendo assim, era considerada como cor de proteção.
“As mulheres utilizavam roupas vermelhas quando da menstruação, pois acreditavam que assim estariam desinfectadas dos maus espíritos". Ibid., 176.
Considerando as características e a forma de colonização adotada, o homem indígena, tinha um papel coadjuvante, visto que não tinha vocação para trabalhos forçados e pouco se adaptava a situações de desgaste físico. Não tinha menor propensão para encarar rotinas de trabalho que chegava a dezoito ou vinte horas diárias, de trabalho continuo, árduo, e com alimentação de baixo valor nutritivo, trabalho este que era imposto para os escravos, segunda leva de povoadores, que aqui chegaram a mando dos portugueses com o objetivo de dar sustentação para o poder vigente. As mulheres, no entanto, até a chegada dos primeiros escravos, foram fundamentais para o processo de povoamento, pois, sendo as primeiras a se amancebarem com os portugueses, degredados da Coroa, que aqui chegaram.

Na sociedade indígena, segundo Fátima Quintas, “A exaltação da mulher era apenas um sofisma. Havia pajés efeminados, do que se conclui que a proximidade do feminino é meritória, mas é preciso, antes de mais nada, ser homem para ocupar status privilegiado. Homem com ademanes femíneos. Com maneirismos adocicados. Com intuição acurada. Mas homem"(p.36). Os chefes das tribos eram os grandes portadores da verdade divina, que ditavam as regras sociais para a tribo, e deles não era contestado os valores essencialmente masculinos, podendo assim pender para o feminino, mas homens de essência, perante os critérios deles.

Quintas considera que existia uma tentativa de “nublar a força da mulher por meio de sofisticados elementos que subsidia as relações de gênero, dualizando-as em categorias opostas". (p.39).
Bibliografia:
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. São Paulo: Global, 2005.
______ Sobrados & Mucambos. São Paulo: Global, 2005.
______ Modos de Homem, Modas de mulher. São Paulo: Record, 2002.
PRADO, Paulo. Retrato do Brasil. 1928.
QUINTAS, Fátima. Sexo a moda Patriarcal. São Paulo: Global, 2008.

Nenhum comentário: